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Texto Crú

Texto Crú

Arte sem Muros

por Paulo Vinhal, em 24.05.16

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Recordo vagamente aqueles tempos. O essencial. As casas a preto e branco, as plantas cuidadas, a multidão, o cerco. A arte. O verniz das madeiras. A passarada nas beiradas dos telhados. A roda dentada. A arte… a arte. Os artistas. Chegavam até mim de mãos fechadas e palavras. Um resto de saber cru escapava-se-me através dos poros e dos dentes podres. É uma identificação minha, uma paranoia oculta, um medo entendido. O celuloide queimado e o papel amassado, eretos sobre as andas da inferioridade. Sempre casmurro e discreto. O álcool bêbado nas sarjetas da manhã, o sol opaco por cima das árvores do monte e o mosteiro, lá em cima, esquecido no tempo. A arte e os artistas. Os muros em volta. As flores no alcatrão e a cal em pedaços. Recordo vagamente…

 

Caçador

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Sabes que agora, depois de tudo ter acontecido, também eu cravo as minhas garras na terra. O meu coração, como o fole dum velho acordeão, derrama toda a sonoridade no húmus destas folhas rasgadas e o teu rosto emerge do oculto com a voz aberta a dizer pensamentos desconexos que se diluem na hipnose do sangue, enquanto eu vou farejando como um caçador os rebentos dos teus poros fechados. E nesse encontro, como no perdão profundo da carne, o restauro com a luz trémula da candeia a boiar na escuridão.

 

Naco de pão

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Acabo de chegar. Não venho de lado nenhum. Trago no bolso um naco de pão cozido por mim. Dias atrás, a fome e o medo rondaram todas as entranhas de cada ser vivo, todas as paredes de cada cubículo. Estive lá e não estive. Vadiei pelas sombras sem nunca me perder. Trago comigo um guia que me indica todos os caminhos, poderoso como um feiticeiro. Nunca dobra uma esquina que não desembainhe a espada, pesada como o pecado. Nesses dias o medo rondou, mas eu não tive medo. Nesses dias a fome rondou, mas trago sempre no bolso este naco de pão.

 

 

Silêncio

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Dá-me esses cancros colados na tua pele e esses teus ossos carbonizados pelo sabor dos repastos, que com os tentáculos deste Cristo antigo e estoico como um animal com escamas acabado de sair das profundezas da lama, vou-te libertar com corda e chumbo. Espero pelo cair das asas e pelo acordar da luz, silencioso como um carneiro. Espero sempre por ti e como já te ameacei, vou entrar pela tua casa dentro com o meu exército, abrir as portas e as janelas de par em par e libertar-te desses grilhões que te seguram às pedras.

 

Cultivo da dor

por Paulo Vinhal, em 21.05.16

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No calor intenso da manhã desenho na tua cara círculos e traços com um lápis preto. Sinto no teu pescoço e no teu peito nu as veias inchadas. Vejo no teu espírito afogado o sangue da carne. O génio que cultiva a dor e o carrasco que dorme, as bandeiras na borda da água e a ira dos homens, o vão que abriga a espada e os campos de milho. E lentamente, governado por estas mãos de que me vou esquecendo, recordo. Recordo-te a ti e a todos como tu, ainda bêbados pela manhã, amontoados entre o lixo dos quartos. Recordo os vómitos crus e os vestidos de malha, a minha esfera mental a vaguear por entre as paredes brancas e pelas fendas dos tetos.

 

 

Animal

por Paulo Vinhal, em 16.05.16

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Iluminado pela escuridão da sala, recordo. Anulo vagamente as raízes do ódio que sobem pelas paredes vazias e mastigo o ar da manhã sombrio e amargo. Avanço pela solidão dentro completamente desarmado, do alto da minha velhice prematura. A mesa posta de linho, os talheres desirmanados e as cadeiras rotas no tampo. A aura das gotas de chuva e os anéis espalhados no chão. Engulo lentamente o som da terra a despenhar-se no mar e imagino-a a roer a corda que a prende aos homens. Penso em mim como um animal que venceu a fome. Ligo os pontos na escuridão e fujo desarvorado através do silêncio. Procuro-te por todo o lado, mas apenas encontro estas raízes nas pedras que me seguram ao fundo.

 

 

Palavras sem tinta

por Paulo Vinhal, em 10.05.16

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O dia, prolongado nas trevas, ilumina todo o alpendre e as flores da varanda. Ouço o riso atroz das bruxas que passam e o piar suave das aves nos ninhos. O tempo não passa. A luz não me deixa. As mãos na cabeça, os livros fechados, o som do arvoredo e o cheiro dos tachos. Só sei que estou aqui sentado. Não sei mais nada. Os meus pés pousados no chão criaram raízes nas pedras da casa. Imagino-te a fugir pelos montes meu amor, com um livro azul debaixo do braço e um cão à esquerda. Vais descalça e com medo que te encontre. Eu também tenho medo. Estou dentro do mundo a vomitar palavras sem tinta. E a fome da vida no braço direito, a força que agarra a caneta vermelha, a dor que percorre o pescoço e a nuca, os passos que dou pelos quartos vazios.

Do teu lado

por Paulo Vinhal, em 10.05.16

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O livro está todo sujo… ardem-me os olhos com o vinagre das letras. Folheio desatento, mergulhado no medo. Lá fora, destacado das sombras da noite, vagueia o cão da fome com passos pesados e rosnar apagado. Folheio lentamente estas folhas sebosas no auge da minha decadência. Sou um ladrão. Estou aqui. Estou a ler e a compreender o que leio. Ardem-me os olhos e doem-me as mãos, os dedos partidos, os golpes das facas. As palavras passam pelos lampiões pendurados nas esquinas, abraçadas a ti, meu amor. O teu nome e os vómitos noturnos são a febre que passou da imaginação. São o real que gravei na carne dos braços e no ódio da mente. São a luz que te cega e este sebo nas mãos, a sujidade do livro e as letras ligadas. Lá fora, nas sombras da noite vagueias tu pela lama das pedras. Espera. Fica mais um pouco porque eu sou um ladrão e estou do teu lado.

 

 

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