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Texto Crú

Texto Crú

Palavras sem tinta

por Paulo Vinhal, em 10.05.16

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O dia, prolongado nas trevas, ilumina todo o alpendre e as flores da varanda. Ouço o riso atroz das bruxas que passam e o piar suave das aves nos ninhos. O tempo não passa. A luz não me deixa. As mãos na cabeça, os livros fechados, o som do arvoredo e o cheiro dos tachos. Só sei que estou aqui sentado. Não sei mais nada. Os meus pés pousados no chão criaram raízes nas pedras da casa. Imagino-te a fugir pelos montes meu amor, com um livro azul debaixo do braço e um cão à esquerda. Vais descalça e com medo que te encontre. Eu também tenho medo. Estou dentro do mundo a vomitar palavras sem tinta. E a fome da vida no braço direito, a força que agarra a caneta vermelha, a dor que percorre o pescoço e a nuca, os passos que dou pelos quartos vazios.

Do teu lado

por Paulo Vinhal, em 10.05.16

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O livro está todo sujo… ardem-me os olhos com o vinagre das letras. Folheio desatento, mergulhado no medo. Lá fora, destacado das sombras da noite, vagueia o cão da fome com passos pesados e rosnar apagado. Folheio lentamente estas folhas sebosas no auge da minha decadência. Sou um ladrão. Estou aqui. Estou a ler e a compreender o que leio. Ardem-me os olhos e doem-me as mãos, os dedos partidos, os golpes das facas. As palavras passam pelos lampiões pendurados nas esquinas, abraçadas a ti, meu amor. O teu nome e os vómitos noturnos são a febre que passou da imaginação. São o real que gravei na carne dos braços e no ódio da mente. São a luz que te cega e este sebo nas mãos, a sujidade do livro e as letras ligadas. Lá fora, nas sombras da noite vagueias tu pela lama das pedras. Espera. Fica mais um pouco porque eu sou um ladrão e estou do teu lado.

 

 

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