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Texto Crú

Texto Crú

Caçador

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Sabes que agora, depois de tudo ter acontecido, também eu cravo as minhas garras na terra. O meu coração, como o fole dum velho acordeão, derrama toda a sonoridade no húmus destas folhas rasgadas e o teu rosto emerge do oculto com a voz aberta a dizer pensamentos desconexos que se diluem na hipnose do sangue, enquanto eu vou farejando como um caçador os rebentos dos teus poros fechados. E nesse encontro, como no perdão profundo da carne, o restauro com a luz trémula da candeia a boiar na escuridão.

 

Naco de pão

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Acabo de chegar. Não venho de lado nenhum. Trago no bolso um naco de pão cozido por mim. Dias atrás, a fome e o medo rondaram todas as entranhas de cada ser vivo, todas as paredes de cada cubículo. Estive lá e não estive. Vadiei pelas sombras sem nunca me perder. Trago comigo um guia que me indica todos os caminhos, poderoso como um feiticeiro. Nunca dobra uma esquina que não desembainhe a espada, pesada como o pecado. Nesses dias o medo rondou, mas eu não tive medo. Nesses dias a fome rondou, mas trago sempre no bolso este naco de pão.

 

 

Silêncio

por Paulo Vinhal, em 23.05.16

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Dá-me esses cancros colados na tua pele e esses teus ossos carbonizados pelo sabor dos repastos, que com os tentáculos deste Cristo antigo e estoico como um animal com escamas acabado de sair das profundezas da lama, vou-te libertar com corda e chumbo. Espero pelo cair das asas e pelo acordar da luz, silencioso como um carneiro. Espero sempre por ti e como já te ameacei, vou entrar pela tua casa dentro com o meu exército, abrir as portas e as janelas de par em par e libertar-te desses grilhões que te seguram às pedras.

 

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