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Texto Crú

Texto Crú

Retrato acabado

por Paulo Vinhal, em 20.06.16

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Ao lado dos túmulos deles, espetadas no chão, duas flores amarelas murchas baloiçam com as lufadas momentâneas que vêm do sul. Dois seres perdidos caminham de mãos dadas pelo relvado junto ao bosque. Não procuro nada. Estou apenas de visita e trago comigo este alfarrábio que me sufoca e estas folhas cobertas de traços de lápis. Na memória as visões de papel, o retrato acabado e o sexo nas trevas aceso por dentro.

Árvore

por Paulo Vinhal, em 17.06.16

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Não estou cansado. Apenas triste e desiludido. Como um deus entrelaçado nos ossos dum ser humano, esta árvore continua a crescer na filosofia bruta que soa nos tímpanos como o ladrar dum cão. Coberta de cascas contorce-se pelo ar abafado da noite e entrega os frutos maduros e a folhagem verde no espaço apertado entre o paraíso e o torpor da droga. Não cresce só para mim. Cresce também para ti e para ti e para ti.

Arte

por Paulo Vinhal, em 14.06.16

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Na violência das minhas palavras cruas rasteja a voz dos teus lábios. São esculturas que talho só para ti nos meus momentos de solidão. São quadros que pinto com arte, com sangue, com fome, com vida e com sal. São poemas que rasgo ainda brancos na luz da manhã.

Linhagens

por Paulo Vinhal, em 10.06.16

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Na tua expressão de carvão guardo a memória a correr profunda pelo coma inerte. O ar e os traços, o negro das veias e as armas de guerra. A literatura tosca nos teus lábios de tinta e a voz da manhã nos teus olhos fechados. É nesse naufrágio de abraços que me mantenho na linhagem dos homens que te querem inteira.

Asas secretas

por Paulo Vinhal, em 09.06.16

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Agora que acordaste mantém-te aí sentada. Voa secretamente nas tuas velhas asas de pássaro de cartão. Queima o teu tempo no tempo e nas mentes prostituídas pela insónia e pela brutalidade de todas as mãos em sangue. Destrava a linguagem rude e a desatenção visível, porque com as minhas velhas asas de pássaro de cartão, também eu acordei e estou aqui sentado e atento, a voar secretamente no tempo queimado.

Desligar

por Paulo Vinhal, em 08.06.16

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O farrapo do coração, já velho e elegante, acende-se para tudo o que é antigo. Emociona-se ao ver passar coisas a que ninguém dá valor. Faz crescer os braços como raízes por todos os recantos das coisas e, no epicentro do medo, cresce conforme a estética do mundo. A aura eletrónica e hostil dos objetos pousados por toda a parte é esfaqueada repetidamente pelo perdão dos sonhos mudos que reconstroem a realidade passo a passo. É quando à vista de todos o invisível se expande. É quando a razão definha e o coração de carne distende a musculatura livremente através da filosofia endócrina dos dias. É quando todos estão em sintonia e eu desligado.

Perto da praia

por Paulo Vinhal, em 04.06.16

 

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Trago dentro da dor um mundo de cinzas, a textura das pedras e o vinil do metal das facas. Passo dias seguidos a escutar os rumores dos sons surdos do mundo, entranhados em todas as coisas. Os meus braços circundam-te, meu amor. Ainda usas o mesmo chapéu. O único que te dei. Confessei-me nesse dia, apesar do aspeto do tempo. Entreguei-me ao chão e ao silêncio cego da esfera da vida, com estas palavras que me esmagam as mãos. O dia, o chapéu e a vida, imutáveis na sua essência, transformaram-se só para nós, embora não tenhas visto. Foi perto da praia, junto ao muro que separa a estrada do arvoredo.

Dois Irmãos

por Paulo Vinhal, em 04.06.16

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Viajo por atalhos sombrios com os meus dois irmãos e nunca nos desencontramos. A harmonia e a subtileza da profundidade a que chegamos os três, encharcada na sonoridade poética do álcool da noite, sufoca-nos com a verdade poderosa que une todas as partículas da carne. É nestes momentos que levantados nos encontramos sempre na evidência do invisível.

 

 

Sábia Miséria

por Paulo Vinhal, em 02.06.16

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O tédio do abismo e da dor apagada reclama-nos lentamente pelas veias da terra e como drogados, no seio do nada, só a sábia miséria nos abriga e sustenta, atiçando a imaginação a preto e branco nas volutas mortas do cérebro com a imponência das horas.

 

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