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Texto Crú

Texto Crú

Símbolos de tinta

por Paulo Vinhal, em 27.07.16

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Santa carne. Golpe de faca. Quisera eu que o teu coração queimado, no solo rasgado da primavera, salvasse os palmos de terra que piso em botas de tropa dos claustros e dos lamaçais. Sobe querida até junto de mim. Do antro à vida. Enterra os teus símbolos de tinta da carne na minha carne. Acorda em alegria e sede e morre livremente nos meus braços estendidos pelos protões dos teus braços. Nos teus olhos sem cor o arco das cores desfaz-se em sonhos. É o limite perpendicular do teu transe esquemático, a minha cólera, a tua força, os meus ombros caídos, as tuas asas de palha.

Na gaveta

por Paulo Vinhal, em 25.07.16

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Com os rins atados pelo couro acordo violentamente ao teu lado. Não tens nem Deus nem Fé, a carne tatuada e uma réstia de saliva. As minhas barbas sujas são a tua única alegria, o repouso das tuas mãos que desenharam de cima a baixo esta casa de pedra, esta morada de carne e este rosto invisível. Sou amargo ao longo deste acordar violento no espasmo dum animal esfaqueado na escuridão, enquanto recitas um dos velhos poemas que eu tinha guardado na gaveta de cima.

Essência Mecânica

por Paulo Vinhal, em 19.07.16

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O ADN rústico que me alimenta a longa noite de verão, assinado desde o primeiro dia, procura tudo e encontra tudo nos teus lábios sedosos e no teu olhar de ferro, na tua essência mecânica e na fuligem da aura.

Verão

por Paulo Vinhal, em 17.07.16

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Caminho com gentileza através das ruas desertas. Os passeios empedrados e o alcatrão da estrada fumegam sob um verão quente e sombrio. Trago nas mãos o sangue da guerra e no meu sangue Deus e a Terra. Caminho através do invisível rasgado com os pés sujos e cheios de calos, os braços nos braços, a roupa da vida, os ossos marcados e o tempo estendido. À tua espera caminho gentilmente com o meu arsenal bélico na voz estragada. Agora e sempre.

Chuva

por Paulo Vinhal, em 14.07.16

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Agora só cá estamos nós os dois e o silêncio da memória. Só cá estamos nós e estas construções que pelas minhas e pelas tuas mãos foram derrubadas e reerguidas ao absorvermos calmamente todo o medo tântrico nas estações chuvosas.

Sonho

por Paulo Vinhal, em 12.07.16

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O sono pesado chegou na praia com um sonho profundo, enrolado nas areias mornas carregadas de sal e algas. O travo da fé, alojado na garganta e nos pulmões abertos, recita em voz baixa um soneto antigo. Adormeço. Acordo. Adormeço de novo. Vejo-te ligada ao tecido negro da noite, pintada de amarelo e rosa. Junto a ti, três pássaros castrados com um piar sereno levantam voo em direção ao nada e lá longe, quase indistinto, um grupo de dez vultos brancos entra e sai do sonho por uma porta aberta. Estás-me a dizer coisas ao ouvido, mas a força deste sonho abafa as tuas palavras na melodia dos teus lábios grossos. A inconsciência da luz destrava a imaginação sombria. A areia morna embarga o sal das ondas. Acordo. Adormeço.

 

Relatório

por Paulo Vinhal, em 09.07.16

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Cobertos de rebentos benignos, os muros altos das propriedades traçam um delineado impressionante através de todo o vale. Chove torrencialmente.  Ao longe ouve-se o apaziguador ribombar do trovão e o repicar do sino da capela de São Julião. Dentro dos muros os homens vão-se afundando na nostalgia irregular do sangue, enquanto o medo das trevas os envolve como um animal sequioso e neste meu posto de vigia, entrelaçado nas raízes do mundo, vomito o relatório solicitado pelo ladrão que passou impercetível pelas redondezas.

Ciência suspensa

por Paulo Vinhal, em 05.07.16

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Recordo tempos antigos estagnado nesta sala fechada, sob o bafio dos móveis e o teto queimado. Recordo a toalha estendida, os panos rasgados, as nódoas nos vidros e as pratas rachadas. Recordo cada livro pousado, a ciência suspensa, as conversas tardias, a noite profunda. Em redor da luz obscura da memória, o olhar bruto dos invisíveis e o coma dos vivos.

Fogo molhado

por Paulo Vinhal, em 03.07.16

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Tenho aqui o coração dum velho pescador para te deleitar em veludo e cinza. Sufoca na lama a tua condescendência e as balas perdidas, esse pensamento sombrio e a dormência dos sonhos. Repara como este fogo molhado que crava os dentes nas letras perdidas se estende na arte dos caminhos, por onde passa toda a poesia que te escrevo enterrado na vida até ao pescoço.

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